Por que razão os pés estão em risco na diabetes?
A diabetes aumenta o risco de complicações do pé devido à neuropatia periférica, à doença arterial periférica e à alteração dos processos de cicatrização. A redução da sensibilidade favorece que pequenos traumatismos ou pressões passem despercebidos, enquanto a diminuição da perfusão e a disfunção imunitária aumentam o risco de infeção e retardam a cicatrização 1, 3, 4.
Consequentemente, mesmo lesões cutâneas de pequena dimensão podem evoluir rapidamente.
Como identificar o risco de pé diabético na farmácia
Em doentes com diabetes, o farmacêutico identifica frequentemente sinais como xerose, hiperqueratose, gretas nos calcanhares, fissuras, calosidades, helomas, alterações ungueais, bem como pequenas lesões cutâneas, bolhas e infeções fúngicas. É importante lembrar que a ausência de dor não exclui um risco elevado, particularmente em indivíduos com neuropatia estabelecida ou suspeita. A alteração da sensibilidade pode passar despercebida sem avaliação com ferramentas clínicas simples, como o neurotip, às quais muitas farmácias têm acesso, sendo, no entanto, necessária formação adequada para a sua utilização 5. Perante suspeita de neuropatia, recomenda-se o encaminhamento para podologia para realização de avaliação sensorial formal integrada numa avaliação global do pé. Qualquer interrupção da integridade cutânea deve ser considerada clinicamente relevante 2, 6, 7.
Quando um doente com diabetes se apresenta na farmácia com uma alteração no pé, o farmacêutico deve iniciar a avaliação com perguntas dirigidas que permitam contextualizar a situação clínica. Estas incluem a duração do problema, antecedentes de lesões ou ulceração, a presença ou ausência de dor e o tempo de evolução da diabetes. Esta informação é fundamental para identificar fatores de risco e determinar a urgência da intervenção.
Sempre que adequado, deve proceder-se a uma inspeção visual para avaliar a presença de descontinuidade cutânea, eritema, edema, exsudado ou alterações de coloração. O uso de calçado inadequado e as limitações no autocuidado constituem fatores adicionais de risco. Qualquer achado anómalo deve justificar o encaminhamento 6-8.
Cuidados diários dos pés
A prevenção das alterações do pé em pessoas com diabetes inicia-se com a educação do doente. Os farmacêuticos comunitários constituem frequentemente o primeiro ponto de contacto, assumindo assim um papel central na promoção de comportamentos preventivos e na sensibilização para o risco precoce.
As orientações internacionais recomendam a adoção de rotinas diárias estruturadas de cuidado do pé, incluindo a inspeção diária, a higiene adequada com lavagem e secagem minuciosa, bem como a aplicação regular de emolientes na pele seca para prevenir fissuras, evitando a sua aplicação nos espaços interdigitais 6, 7.
É igualmente fundamental fornecer orientação sobre o cuidado seguro das unhas, a escolha de calçado adequado e a evitação da marcha descalça. Os doentes devem ser informados sobre a necessidade de procurar aconselhamento de forma precoce perante qualquer lesão cutânea, alteração de coloração, edema ou outro sinal novo, mesmo na ausência de dor 6, 7, 9.
Palmilhas e cuidados da pele na prevenção do pé diabético
As alterações do pé em doentes com diabetes podem estar relacionadas com modificações estruturais associadas à neuropatia, ao processo de envelhecimento e à morfologia pré-existente do pé. Estes fatores favorecem a formação de áreas de aumento de pressão e fricção plantar, que, de forma progressiva, podem contribuir para a degradação da integridade cutânea.
As recomendações internacionais indicam que o uso de palmilhas simples destinadas à redistribuição da pressão pode ser apropriado em indivíduos com baixo risco de ulceração. Ao promoverem uma melhor distribuição das cargas, melhorar a absorção de impacto e aumentar o conforto e a proteção global, as palmilhas integram-se numa estratégia preventiva abrangente orientada para a manutenção da integridade da pele 6, 7.
Paralelamente, a aplicação regular de emolientes contribui para a hidratação cutânea e para a manutenção da função de barreira. As formulações contendo ureia podem ser particularmente benéficas na redução da xerose e da hiperqueratose. A preservação da elasticidade e flexibilidade da pele é essencial para minimizar o risco de fissuras e gretas.
Neste contexto, o suporte mecânico e os cuidados tópicos adequados atuam de forma complementar no âmbito da abordagem preventiva de rotina em pessoas com diabetes 9-11.
Seleção de produtos e critérios de encaminhamento
Em doentes com diabetes classificados como de baixo risco, o farmacêutico pode desempenhar um papel ativo na prevenção, recomendando produtos adequados para o cuidado do pé. No entanto, a presença de úlceras, feridas abertas ou sinais de infeção requer avaliação médica e encaminhamento.
Na recomendação de medicamentos não sujeitos a receita médica, a seleção dos princípios ativos é determinante. Produtos que contêm ácido salicílico (incluindo determinados pensos para helomas ou tratamentos queratolíticos) podem não ser apropriados para o pé diabético, devido ao seu mecanismo de ação e ao risco acrescido de lesão cutânea, sobretudo em presença de diminuição da sensibilidade.
Para facilitar uma utilização segura, os produtos Dr. Scholl’s incluem recomendações específicas para pessoas com diabetes, orientando a sua utilização tanto por doentes como por profissionais de saúde 6, 8.
Sinais de alarme que requerem encaminhamento urgente
O farmacêutico deve aconselhar avaliação médica urgente sempre que, no decurso da avaliação, se identifique qualquer um dos seguintes sinais:
- Úlceras ou feridas abertas
- Sinais de infeção: agravamento do eritema, aumento da temperatura local, edema, dor ou sensibilidade, ou exsudado
- Presença de tecido necrosado ou coloração escura da pele
- Deformidade recente do pé
- Alterações súbitas ou inexplicáveis da sensibilidade
Estes sinais são indicativos de um risco elevado de complicações graves e requerem avaliação especializada urgente.
- Armstrong, D.G., A.J.M. Boulton, and S.A. Bus, Diabetic Foot Ulcers and Their Recurrence. N Engl J Med, 2017. 376(24): p. 2367-2375.
- van Netten, J.J., et al., Definitions and criteria for diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev, 2024. 40(3): p. e3654.
- Pop-Busui, R., et al., Diabetic Neuropathy: A Position Statement by the American Diabetes Association. Diabetes Care, 2017. 40(1): p. 136-154.
- Srinivas-Shankar, U., A. Kimyaghalam, and R. Bergman, Diabetic Foot Ulceration and Complications, in StatPearls. 2025: Treasure Island (FL) relationships with ineligible companies. Disclosure: Ali Kimyaghalam declares no relevant financial relationships with ineligible companies. Disclosure: Rachel Bergman declares no relevant financial relationships with ineligible companies.
- Matalqah, L.M., A. Yehya, and K.M. Radaideh, Pharmacist-lead screening for diabetic peripheral neuropathy using Michigan Neuropathy Screening Instrument (MNSI). Int J Neurosci, 2024. 134(8): p. 882-888.
- Schaper, N.C., et al., Practical guidelines on the prevention and management of diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev, 2024. 40(3): p. e3657.
- Senneville, E., et al., IWGDF/IDSA guidelines on the diagnosis and treatment of diabetes-related foot infections (IWGDF/IDSA 2023). Diabetes Metab Res Rev, 2024. 40(3): p. e3687.
- in 2019 surveillance of diabetes (NICE guidelines NG17, NG18, NG19 and NG28). 2019: London.
- Bus, S.A., et al., Guidelines on the prevention of foot ulcers in persons with diabetes (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev, 2024. 40(3): p. e3651.
- Ren, Y., et al., Advancements in diabetic foot insoles: a comprehensive review of design, manufacturing, and performance evaluation. Front Bioeng Biotechnol, 2024. 12: p. 1394758.
- Piquero-Casals, J., et al., Urea in Dermatology: A Review of its Emollient, Moisturizing, Keratolytic, Skin Barrier Enhancing and Antimicrobial Properties. Dermatol Ther (Heidelb), 2021. 11(6): p. 1905-1915.


